O Mestrado do Comunista


Tomaz Fantin

Alunos reclamões. Lattes desatualizado. Aposentadoria próxima. Saí da Universidade e fui pro boteco tomar algo forte. Na segunda dose de Jack uma mensagem no celular:
“Lembra do aluno fulano de tal? Ele está com dúvidas no mestrado, é uma parte da tua disciplina, poderia ajuda-lo mesmo depois daquele episódio?”
Meus amigos pediam a terceira rodada enquanto discutiam a escalação da Lázio do ano 2000. A mensagem tinha sido de um colega, professor lá da Universidade, liberei o meu contato para o aluno.
O piá pediu umas biografias, indiquei Olavo de carvalho e Plínio Salgado. Recomendei que os lesse ouvindo Wagner. Completei:
“Depois daquela discussão que tivemos em aula será um prazer fazer parte da tua banca.”
Qual não foi a minha surpresa com a resposta do Che Guevara de DCE:
“Entrei em contato com o senhor por insistência do meu orientador, te quero longe do meu trabalho, seu bolsominion.”
Virei o copo num gole só. Peguei o celular de novo e coloquei o filhote de Trotsky no lugar dele:
“Comunista de merda!”
Guardei o celular no bolso, levantei e fui dar uma mijada. No banheiro pensei melhor. Aquela mensagem ainda ia me dar incomodação, hoje em dia é tudo mimimi. Dois meses antes o aluno tinha me chamado de fascista numa aula, só por que eu defendi a Revolução de 64.
Apaguei a mensagem. Só que bêbado, apaguei a mensagem para mim e não para o todos da conversa. Fiquei sem acesso ao que eu tinha mandado e o petista do PSOL acabou recebendo a porra da mensagem. Tomei mais umas duas doses de uísque, peguei a caminhonete e fui pra casa.
Na segunda-feira fui chamado na secretaria da pós para dar explicações. Pedi desculpas praquele projeto de Boulos. Eu que não ia arrumar treta com esquerdopata. Até que saiu barato pois o evento tinha acontecido numa sexta depois do expediente. Apertamos as mãos e fui embora.
O colega que orientava o Fidel com flores veio me perguntar como eu estava e dei o troco na hora:
“Petista!”
Falei na cara mesmo. Nunca mais passei meu contato para aluno nenhum. Hoje em dia é tudo mimimi, tô só pela aposentadoria. De noite, pra relaxar, dei um pulinho no clube de tiro.

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Tomaz Fantin

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