Bitous


Tomaz Fantin

Vai pra mais de cinquenta anos. Eu no Scania 68 e o Zé Reduzida num pó pó pó estorvando na minha frente. Noite escura. Estrada de terra vermelha. O fenemê ligou a seta pra direita e eu segui de atrás. Encostamos.
No meio do pátio, um bolicho de beira de estrada. Melanie Nights Club. Luz roxa piscante. Uns mercedinhos do Paraná estacionados na frente. Passei a gomalina no cabelo e tranquei o caminhão.
Depois de pagar a entrada, tinha que passar pela revista do segurança. Fumaceira branca lá dentro. Um fedor de charutinho da Bahia misturado com perfume barato.
O Reduzida já saiu fazendo amizade. Aperta a mão de um. Gritos de como vai o amigo. Eu tirei uma castelhana pra dançar e saímos girando pelo salão.
Dois pra lá, dois pra cá. Perguntei de onde que vinha, ela me respondeu Ponta Grossa e eu não levei fé. Disse que essa Ponta Grossa dela era ali pros lados de Puerto Iguazu. Fechou a cara, pisou no meu pé e aumentou o requebrado. Quando acabou a música a castelhana me dispensou.
Foi dançar com um barrigudo.
O Zé virava os martelinhos e gritava sapucais. Pagava pra um. Pedia cigarro. Os paranaenses dos mercedinhos não tavam indo muito com a nossa cara.
Eram nuns dez.
Daí apareceu um conjunto pra tocar ao vivo. Subiram no palco uns guris novos. Engomadinhos com o cabelo na moda penico. Bitous. O cantor abriu a goela cantando em alemão:
“Ai uana rolior ré” e não sei o que mais. “Chi loves iuu ié ié ié”.
Boa a música, prefiro Teixeirinha, mas até que não era ruim aquele gritedo dos piás.
A castelhana atirava a cabeça de um lado pro outro com os olhos fechados.
O baixista, que era bonitão, dava umas piscadinhas. O barrigudo do lado da castelhana tava mais sério que criança cagada.
Nem sei como que a briga começou.
O Zé Reduzida tinha ido no banheiro quando eu escutei um estouro.
Vi o meu amigo atracado de soco com um dos paranaenses. Eu quebrei uma garrafa de Brahma e me fui nos beiços do barrigudo. Só sei que a castelhana me deu uma cadeirada nas costas que quase me estropiou.
Alguém desligou o candieiro. A música parou. Os músicos desceram do palco e entraram na briga. Os paranaenses pularam no pescoço do baixista.
Eu me ajeitei da cadeirada e já veio o segurança dando uma bordoada no barrigudo. No escuro, com aquela fumaceira, ninguém mais sabia em quem que batia e de quem que apanhava.
Até a tal da Melanie, dona do bolicho, apareceu e acabou com a briga dando uns tiros pra cima. Todo mundo lanhado.
O Reduzida quebrou um dente da frente e eu saí torto da cadeirada. O bolicho virado em caco de vidro. Uísque paraguaio espalhado pelo chão.
Os paranás arrancaram os caminhões antes de nós e a castelhana se sumiu num mercedinho daqueles.
Os músicos pediram carona até Papanduva.
Zé Reduzida levou o do baixo e o baterista.
O cantor e o guitarrista foram comigo. Gente boa os guris. Dioleno e Jorge Révison. Rérison. Esse era maconheiro pelo jeito, o outro era comunista.
Trabalhavam nas plantações de erva mate de dia e faziam apresentações de ié ié ié de noite.
Chegamos no destino só no outro dia e pagamos multa pelo atraso da entrega. Acabou que deu prejuízo aquela viagem.
Zé Reduzida ainda teve que mexer no motor do fenemê antes de voltar pra casa.
Bitous. Nunca vou me esquecer. Gente boa os guris. Vai pra mais de cinquenta anos.

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Tomaz Fantin

E-mail: tomazfs@yahoo.com.br

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