Vallecas


Tomaz Fantin

Alugamos um quarto numa casa compartilhada com uma família de El Salvador no bairro de Vallecas, reduto de imigrantes e famoso pela resistência à ditadura do Franco.
Em Vallecas, uma das grandes atrações é o Rayo Vallecano que ao contrário dos conterrâneos ricos, Real e Atlético de Madri, é um clube de futebol pouco acostumado às glórias em campo, mas muito bem posicionado fora dele.
Os rayistas já barraram a contratação de um craque ucraniano num momento em que o time estava mal e precisava de reforços. O motivo? O jogador era neonazista.
Certa feita a torcida fez uma vaquinha para pagar vitaliciamente o aluguel de uma torcedora com mais de 80 anos ameaçada de despejo.
Algum tempo depois, ela entregou um mês de sua aposentadoria para ajudar no tratamento de câncer do ex-goleiro Willy, herói do Rayo, e primeiro goleiro negro a atuar na Espanha.
Em 2011, um empresário botou uma grana alta no time e eles subiram da segunda para a primeira divisão, mas após fervorosos protestos contra a mercantilização do futebol, a direção foi obrigada a abrir mão do acordo e o clube caiu de novo para a Série B.
Com festa da torcida.
Folclórico, o Rayo Vallecano recebe muitas visitas de curiosos que até acham graça no que chamam de “espírito cívico” da torcida. Em 2021, por exemplo, dois políticos do Vox, partido da extrema-direita espanhola, assistiram a uma partida no Estádio de Vallecas.
No outro dia a torcida foi em peso ao estádio e lavaram as arquibancadas com desinfetante e água sanitária para espantar qualquer cheiro de fascismo.
No dia em que visitamos a sede estava tudo fechado, apesar do site dizer o contrário. Entramos numa típica padaria espanhola com bom café, presunto (jamón), azeitonas e um atendente mais grosso que parafuso de patrola. Quando perguntado sobre a abertura da lojinha do Rayo o homem fez um gesto vago limpando a mesa:
— Trabajan cuando tienen ganas!
Neste ano o time está em sexto lugar na Série A, a La Liga, mas a torcida parece não dar a mínima.
Pequeno no campo, grande nos valores.
Repetem sorridentes.

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Tomaz Fantin

E-mail: tomazfs@yahoo.com.br

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