Tomaz Fantin
Trabalhava eu e o pai com caminhão. Eu numa 1519 vermelha e o pai num Fenemê amarelo.
Certo dia o veio desembestou. Encostou o Fenemê na beira do Rio das Antas e disse que queria ficar morando lá. Levei a mãe e a mana de carona na 1519 para ir lá conversar com o velho, mas não adiantou.
Ele balançava a cabeça concordando com tudo o que a gente dizia, balançava a cabeça fazendo que sim e depois deitava na cama no fundo da cabine do Fenemê. A mãe se lamentava:
¬¬¬- Fazer o quê? Se ele quer assim.
Eu passei a fazer umas viagens mais curtas por perto. Na passada pela Serra das Antas eu deixava uma cesta com comida preparada pela mãe do lado do eixo dianteiro do Fenemê. Salame, queijo, polenta brostolada, tortéi, capeletti e até uns pães com chimia.
Só uma vez conversamos. Ele voltava de um banho no rio. Me olhou da cabeça aos pés com olhos tristes:
- A estrada tá te fazendo bem.
- Quando vai voltar pra casa, pai?
- Tua 1519 tá fazendo um barulho diferente, vai precisar reformar o motor em breve.
- A mãe tá triste, o senhor virou piada na cidade.
- Tem que trocar a 1519 por um Scania jacaré.
Segui viagem por mais alguns meses até o dia em que não vi o Fenemê no lugar de sempre. Ninguém tinha visto o pai, nem nos postos, nem na estrada.
Conforme o tempo foi passando comecei a sentir que a estrada já tinha dado tudo que eu precisava. Encostei a 1519 na beira do Rio das Antas no mesmo lugar onde o pai tinha encostado o Fenemê e decidi ficar morando lá.
Às vezes, em dias de sol, quando eu ia tomar banho, via um reflexo amarelo no fundo do rio. Sempre tem uma cesta com comida do lado da 1519.